terça-feira, 8 de janeiro de 2013

2013

Já se passou uma semana desde que o ano começou e claro que nada mudou, mas nada é o mesmo.
Corro pela pista na direção contrária dos carros. Não no canto onde deveria estar mas quase no meio da faixa obrigando motoristas a desviarem de mim, ninguém jamais atropelaria um corredor, não de propósito. E naquele momento sinto que sou eu quem manda. Que tudo está conforme meu plano e eu sou o dono do mundo. Isso dura até algum caminhão aparecer fazendo uma ultrapassagem e me obriga a pular para o canto da pista.
Não temos carros voadores, a economia está caindo aos pedaços, a nova ordem mundial está envenenando nossas comidas, água e ar. Nenhuma cura para o câncer surgiu, nem para a AIDS. O mundo ainda está em guerra e mais guerras surgirão em nome da democracia e da liberdade. Nenhuma fonte de energia ilimitada foi descoberta ou inventada. Nenhum alienígena pousou na Terra. Talvez nada de importante tenha acontecido nos últimos dez anos. Nem nos últimos cinquenta. Talvez nada de importante jamais tenha acontecido.
O suor desce pela minha testa e minha camiseta está molhada. Começo a sentir minhas pernas queimarem e minha mente clara. Naquele momento eu não sou meu corpo, sou apenas as árvores passando ao meu lado e um pôr-do-sol que queima a todas as cores do arco-íris. Sim, ele tem tons de rosa, verde e azul ao mesmo tempo. Há violeta e o amarelo do sol. Há o vermelho da poeira. Sou o negro do asfalto se estendendo à minha frente até sumir em uma curva.
Meu país está vendido para a cultura dominante quase do outro lado do mundo e isso fede. Meus iguais acreditam que estão no controle de suas vidas votando e comprando coisas. Eles acreditam em qualquer coisa que a televisão disser. Eles acreditam todos que são melhores do que os outros. Mas eu sou pior achando que sou melhor do que todos eles. Eu sou diferente de vocês, sou pior.
Meu coração bate rápido e forte, sinto as veias e artérias pulsando em meu pescoço. O pulsar de meu corpo todo a cada passo que dou está me dizendo em silêncio que sou uma entidade cósmica perfeita. Que sou um ser de luz, um pedaço de Deus. Me fala calmamente que sou poeira de estrelas que morreram no passado A cada passo que dou meu ser grita que sou uma fonte inesgotável de poder e influência. Que sou a consciência de tudo, uno.
Somos todos macacos brincando. Apenas macacos trepando na cidade com um celular na mão e um cigarro na boca. Um parasita sobre a Terra, extraindo tudo para sustentar nosso confortável modo de vida matando a nós mesmos. Mas não quero pensar nisso enquanto sinto a paz. A endorfina sendo liberada em meu cérebro carregando aquela sensação de paz percorrendo por todo meu corpo. Logo mais a serotonina irá me dar uma sensação de felicidade. A dopamina prazer. Viver não é muito diferente de se estar drogado.
As relações sociais re resumiram a quem vai pagar quem. Quem está no comando da história deve estar no comando de muito papel. Nossas inspirações são artistas sem talento que ficaram mais tempo na fila de um estúdio de televisão. As crianças que agora sinto alívio em não chamar de "minhas" estão caídas na frente da loja chorando para o pai salário mínimo pelo novo celular com mais setenta mil utilidades. Ninguém precisa de metade das utilidades daquilo, se você precisa você está realmente fodido.
Queria mesmo que o mundo tivesse acabado no final do ano passado. Mas talvez ele tenha acabado e ninguém percebeu, ninguém nunca percebe nada. A aproximação de um mendigo na rua lhes pedindo dinheiro para comida os ofende ao invés de dizer "Você está construindo um cu de mundo!".
"Você está me matando!" é a mensagem de cada mendigo pedindo comida, cada desabrigado jogado na rua, sem escolha com uma lata furada e uma pedra de crack queimando. Somos nós caídos na sarjeta.
Mesmo que você se considere tão diferente os futuros te estudarão como um ser sócio-histórico que em vida apenas alugou, comprou e vendeu. Nós somos todos companheiros de época, e estamos nos matando. Ainda.